O que é libertarianismo de esquerda?

O libertarianismo de esquerda, um primeiro passo.

O que é Anarquismo?

Anarquismo e seus primeiros passos no movimento

Bitcoin

Introdução a revolucionário cryptomoeda Bitcoin

Mutualismo: uma introdução

Introdução ao Anarquismo mutualista suas teorias, práticas e ideias.

Mercados Libertos e Anti-Capitalismo

Capitalismo não, Mercados!

Socialismo Libertario, Libertarianismo de esquerda e outros termos

Um esclarecimento sobre o termo libertário e seus constantes erros de tradução e interpretação

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sábado, 11 de outubro de 2014

Despossuídos

Você pode ouvir este ruído? Ele parece estar ecoando em todos os lugares agora. Alguns diriam que soa como as botas da tropa de choque marchando sobre o rosto de nossa dignidade, se mistura com o som das trombetas dos anjos pós-apocalípticos. É esse zunido, o início do fim, o trem de consequências que vem na nossa direção.
Sempre achei que um dia serei preso e torturado pelas autoridades. Sou um paranóico, tento não deixar rastros permanentes, não tenho tatuagens, não carrego marcas que me identifiquem, quero ser mais um entre os comuns, passar desapercebido. Mas ouço esse som, e partilho de outros valores, de desejos, e desses ideais de liberdade, solidariedade e igualdade. Sinto prazer apenas entre pessoas livres, daquelas que não querem dominar nem ser dominadas. São elas que trazem sentido a minha existência, não os mansos, nem os autoritários.
Se um dia sob tortura me perguntarem como tudo começou, lhes direi, foi muito antes do dia em que alguém (e pouco importa quem) coberto de riquezas, se viu no direito de ignorar os mortos de fome, velhos e crianças de rua, a vagar no seu caminho até o shopping. Bem antes de nós, outros ouviram também esse som, mas não no volume em que o ouvimos, esse clamor de liberdade que exige que refutemos toda a hipocrisia que é chamada de "paz" em uma sociedade cada dia mais dividida entre milionários e despossuídos.
É um som oco, o vazio em todos nós, ecos do desprezo que sentimos por esses que não vêem sua própria miséria como causa da miséria material dos outros. Como uma caixa de ressonância e sentido que amplifica nossa sensibilidade diante da injustiça, atiça nossa revolta contra esse tipo de indiferença. Compartilhar é por si só o benefício, busco beneficiar aos outros compartilhando minha revolta contra o silêncio frente a vergonhosa riqueza de alguns poucos que funda a miséria de bilhões.
Este som, este ruído, é como canções de guerra, canções de milhares de povos exterminados, no alvorecer desses estados nacionais, soberania regada com sangue e suor de trabalho escravo. Canções das guerras futuras nas quais eu e você, os seus e os meus, tomaremos parte, a nós resta nos tornarmos os bárbaros que derrubarão estes impérios corruptores em nome de um mundo livre.
Alguém disse que o fantasma da liberdade sempre retorna com uma faca entre os dentes, um punhal a ser cravado no peito do tirano. Somos a faca, e é a liberdade quem nos toma em seu punho. O fantasma da liberdade é discreto, quase invisível. As autoridades e os plutocratas não ouvirão seus passos, nem ouviram nossas canções até sentirem o golpe. Eles não devem saber quem somos, antes disso, seremos ocultistas. Até que seja tarde demais para eles. Então a guerra contra a tirania terá finalmente alcançado um novo patamar, um ponto em que a marcha da tropa de choque para diante das explosões dos molotov, o impacto das pedras e foge em retirada para nunca mais retornar.
Os arranha-céus podem ser derrubados, as bolsas de valores podem ser destruídas, mas nenhuma força de ordem no mundo foi capaz de abalar esse modo de ser anárquico, este senso ferido de justiça. Porque consciente ou inconscientemente ele está por todos os lugares, encontra-se em todos os cantos onde são ouvidas as canções de guerra. Sons que não ecoam por ideais, mas por formas de vida anticapitalistas! Você pode escutá-lo? Pode tomar parte nele até que chegue onde deve chegar?



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Estado vs O Ladrão de estrada - Lysander Spooner



sábado, 4 de outubro de 2014

Maria Lacerda de Moura



Por Mabel Dias e Coletivo Insubmiss@s

Publicado na cartilha “Mulheres Anarquistas: o resgate de uma história pouco contada” em 2003.

Nascida em 16 de maio de 1887 em Minas Gerais, foi uma figura polêmica, e desde cedo teve interesse pelas idéias sociais e anticlericais.

Maria Lacerda de Moura defendia uma postura libertária para as mulheres, quando, por exemplo, incitava as mães de soldados que estavam indo participar da Segunda Guerra Mundial, no combate às tropas nazistas, para que não deixassem que seus filhos se alistassem no exército; dizia ainda que o voto não significava nenhuma emancipação para as mulheres e defendia a maternidade como uma livre opção, e não uma imposição.

Foi professora primária, em Barbacena, Minas Gerais, formada pela Escola Normal, e acreditava na educação como um instrumento de transformação social, tendo adotado a pedagogia libertária de Ferrer. Como educadora aderiu às campanhas de alfabetização de adultos, e fundou a Liga Contra o Analfabetismo. Na década de 20, 80% da população brasileira tinha acesso a uma alfabetização rudimentar. Teve um trabalho com as mulheres da região, incentivando mutirões de construção de casas para a população carente da cidade.

Ao se mudar para trabalhar em São Paulo, em 1921, começou a dar aulas particulares e posicionou-se contra as iniciativas oficiais no ensino, buscando alternativas educacionais ligadas a movimentos sociais.

Partindo de suas leituras e reflexões sobre a condição feminina, no trabalho e na educação, passou a combater outras formas de autoritarismo na esfera do pequeno grupo e na privada, como combateu na esfera pública com relação ao poder político e econômico.

Participou do teatro social e colaborou com a imprensa operária e anarquista, tendo fundado em 1923 a revista Renascença, que circulava entre os anarquistas e livres pensadores. No jornal A Plebe, escrevia principalmente sobre pedagogia e educação. Denunciava as práticas pelas quais os exploradores mantinham o saber e o poder sobre a mulher e a criança, adotando assim o discurso e a prática pedagógica
anarquista.

A partir de 1926, passou a viver em uma comunidade, em Guararema, interior de São Paulo. Tratava-se de um lugar formado por objetores de consciência da Primeira Guerra Mundial, que tinham se reunido à beira do rio Paraíba, pretendendo viver em liberdade, sem hierarquias. A comunidade de Guararema pereceu diante da repressão do governo de Getúlio Vargas, em 1935. Quando a comunidade acabou, Maria Lacerda de Moura voltou para Barbacena e tentou viver como professora de preparatórios para o ginásio.

Teve algumas divergências com os anarquistas, respectivamente nos anos de 1923 e 1935. A primeira divergência foi quando em uma conferência chamada "Conformados e Rebeldes", ela discorreu sobre a obra
educacional do ministro da União Soviética, elogiando-a. A platéia era de anarquistas, que ficaram revoltados, pois sofriam com as violentas perseguições movidas pela União Soviética aos dissidentes do Comitê Central e não gostaram nada no apoio que Maria Lacerda deu a obra do ministro russo em seu discurso. Em 1922, ela volta a juntar-se aos anarquistas na campanha contra a guerra e na Liga
Anticlerical.

Mas vem então a segunda polêmica, quando ela declarou, durante a publicação de seu livro antifascista "Fascismo -filho dileto da Igreja e do Capital”, que além de Jesus Cristo não conhecia outros anarquistas. Daí então, houve um novo afastamento, tanto de Maria Lacerda de Moura em relação aos anarquistas, quanto dos anarquistas em relação a ela.

Osvaldo Salgueiro e Pedro Catalo, no jornal A Plebe, diziam que Maria Lacerda tinha um discurso confuso e disperso, uma inconsistente teoria política e apresentava contradições em seus escritos e em sua atuação. Edgard Leuenroth, teve a colaboração da jornalista nos jornais A Plebe e A Lanterna e quando escreveu seu livro, em 1953, Anarquismo: roteiro de libertação social, não menciona nenhuma obra de Maria Lacerda de Moura.

Ela se considerava individualista e dizem que por isso ganhou antipatias das feministas que não davam respaldo aos livros publicados e palestras que ela fazia, até porque ela criticava os propósitos das feministas, que acreditavam que o voto e a mulher no poder mudariam a situação de submissão das mulheres. Durante algum tempo foi presidenta da Federação Internacional Feminina e tentou articular as mulheres de Santos e São Paulo num movimento que ultrapassasse os objetivos eleitorais do movimento sufragista de Bertha Lutz. Embora tivesse tido divergências com @s anarquistas, os pontos em comum entre el@s eram vários.

Tinha posturas que se aproximavam dos movimentos anarquista e feminista, mas sentia-se livre para tecer críticas a ambos, ou a outros movimentos político-sociais, pois via erros neles e não conseguia deixar que isso passasse "em branco", sem que ela exprimisse sua posição pessoal.

De 1939 a 1945 (ano em que morreu), recolhe-se a um silêncio correspondente à crença de que cada um@ só pode descobrir a sua verdade, e sob a inspiração de Tolstoi, Gandhi e do individualista francês Han Ryner, passou a denunciar os perigos da "ciência sem consciência", cujas descobertas ligadas aos interesses industriais iriam ampliar as conquistas bélicas.

Algumas obras de Maria Lacerda de Moura: Em torno da educação; A mulher é uma degenerada?; Lições de Pedagogia; Religião do amor e da Beleza; Clero e Estado; Amai... e não vos multipliqueis; Clero e Fascismo e Serviço Militar Obrigatório para mulher - Recuso-me, Denuncio!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Anarcocapitalismo e anarquismo, o quão são próximos?



A única linha anarco-capitalista que pode-se se colocar muito próximo realmente do anarquismo seria os antigos como Konkin e Hess, e os modernos como Spangler, Wally Conger, Long e Richman. Mesmo assim ainda existiriam divergências.

A formação de uma sociedade anarquista é caracterizada por um relacionamento pessoal direto, face a face entre organizações de livre associação, democracia direta e unindo-as por federações e não por meio do comércio simplesmente como é no anarco-capitalismo. Independente se é da linha Hoppe ou Long.
Por exemplo, a formação da sociedade dos geolibertários é totalmente diferente do anarco-capitalismo. Eles são liberais? Sim, porém o modo de construção não é baseado em comércio, mas em acordos diretos de ajuda mútua. Isso é realmente uma formação de característica do anarquismo.


No anarco-capitalismo tudo é mercadoria. Os direitos, as organizações, o relacionamento social, tudo é passível de compra e venda. Pro anarco-capitalista o direito é conquistado através da compra dele somente e sua sociedade só reconhece tal direito desse modo. Só através do comércio que os indivíduos de uma sociedade anarco-capitalista tem seus direitos respeitados.

No anarquismo não existe tal coisa. Dentro do estado os direitos não são passíveis de comércio. A democracia representativa não é uma questão de mercadoria, mas do suposto "contrato social". O anarquista não deseja destruir a democracia como os anarco-capitalismo. Pelo contrário, ele deseja que ela se estabeleça de forma ampla, descentralizada e voluntária para que todos tenham acesso a ela de forma igual. Democracia direta.


A própria visão anti-democrática dos anarco-capitalistas demonstra seu desejo contrário até a igualdade de direitos dos antigos liberais clássicos. Os antigos liberais viam a democracia representativa como uma ferramenta de igual voz entre as pessoas. Não era uma questão de comércio, de tornar os direitos uma mera mercadoria para ser vendida. Não é de hoje que eu venho começando a ver o anarco-capitalismo como um degeneração do liberalismo. Não pelo fato dele não se apoiar no estado, mas porque tende a renegar muitas das sólidas bases teóricas do liberalismo clássico.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Mercado Negro e Anarquia

Em algum nível, a maior parte dos anarquistas modernos concordam completamente que a educação e persuasão são os meios mais efetivos de levar a sociedade para seu destino final. Há a convicção de que “ideias importam”; que o estado existe porque a maior parte das pessoas honestamente acreditam que o estado é justo, necessário e benéfico, apesar de alguns inconvenientes. Winston Churchill disse que, “democracia é a pior forma de governo, forma todas as outras tentadas”. O objetivo dos anarquistas é refutar a afirmação de Churchill: mostrando que ao contrário da crença popular, a democracia ocidental não é somente ruim, mas inferior a uma alternativa muito diferente e realista.
Além disso, a similaridade entre as abordagens anarquistas entram em conflito. Em particular, como deve ser a fase de transição? Anarquistas mutualistas ou agoristas geralmente veem uma abordagem evolutiva para alcançar uma nova sociedade incluindo a limitação ou eliminação de monopólios ou controle estatal. Em consequência, eles usualmente apoiam qualquer medida para desregular, eliminar leis, e cortar impostos e gastos assim como leis que beneficiam a classe dominante ou grandes empresas. Similarmente, eles podem somente saudar a propagação da economia do submundo ou o “mercado negro”, sonegação de impostos, e outros atos que desafiam as leis injustas.



A transição desejável para demais anarquistas como as correntes coletivistas ou comunistas do anarquismo. É difícil apoiar a expansão do estado quando é o estado que ele se opõem fervorosamente. E ainda, é difícil defender a abolição dos programas de bem estar social quando eles são um importante meio de subsistência da classe baixa da sociedade capitalista oprimida. Talvez o passo intermediário mais viável seja expandir as alternativas voluntárias a sociedade capitalistas: comunas voluntárias, cooperativas, empresas controladas pelos trabalhadores, ou qualquer coisa que liberte as pessoas e que possam fornecer as pessoas suas necessidades enquanto o modelo capitalista é eliminado, alguns anarquistas não dispensam porem a revolução armada e determinado grupo de coletivistas costuma vê-la como uma única saída viável para o capitalismo, mutualistas diferente da fama “pacifista” que receberam não se opõem a violência como forma de luta ou a revolução como forma de mudança no entanto veem que antes de se derrubar um governo é necessário ter o anarquismo e a ação direita bem como mercados paralelos, cooperativas, comunas e instituições horizontais enraizadas na classe trabalhadora para substituir ou até mesmo fazer frente ao regime estatal e capitalista, mutualistas não veem a revolução como a única forma de transição a uma nova sociedade e preferem uma abordagem evolutiva.
Mercado Negro Anarquista

Sempre ressaltei aqui a contra economia e a utilização consciente do mercado negro para concorrer e utilizar desta tática para atingir a economia capitalista e o estatismo, o agorismo corrente filosófica criado por Samuel Konkin III não se distância deste objetivo.

O agorismo não é uma vertente do AnarcoCapitalismo como alguns libertários de direita costumam afirmar o que chegaria mas perto disto é dizer que o Agorismo é uma evolução de esquerda do Anarcocapitalismo porem com forte influência mutualista e de mercados libertos anti-capitalistas, e subconjunto de anarquismos de mercado.
A filosofia política agorista foi fundada por Samuel Edward Konkin III (aka SEK3)  foi o autor do Manifesto do Novo Libertário. Como Rothbard, no final da década de 1960 e início da década de 1970, Konkin viu o libertarianismo como um movimento da esquerda radical. Ele foi um fundador do Agorist Institute e do Movement of the Libertarian Left.
Konkin era contra o voto, acreditando este ser contra a ética libertária. Ele também se opunha ao “Libertarian Party” o qual ele considerava como um opção estatal do libertarianismo e contraditória aos objetivos libertários.

Apresentou sua estratégia para a realização de uma sociedade libertária no manifesto mencionado. Desde sua rejeição ao voto e a outros meios pelos quais as pessoas normalmente usam para a mudança, reforma, ou lutar contra o sistema a partir de seu interior; sua abordagem necessariamente se destina a lutar contra o sistema, mas de fora. Especificamente, ele encorajava as pessoas a retirarem suas permissões por parte do estado, movendo-se para atividades dentro do Mercado Negro e Mercado Cinza, onde seriam isentas de impostos ou não regulamentadas.


Por: Vinícius Morgado

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Socialismo libertário, libertarianismo de esquerda e outros termos: conceitos e diferenças

Não é própria deste momento histórico a existência de confusões causadas por múltiplas interpretações de uma mesma palavra. Por este motivo, é necessário que o cientista, o pesquisador e o teórico se detenham por um instante sobre a tarefa de apresentar uma conceituação dos termos utilizados. Esta tarefa não corresponde ao ato de tomar para si as palavras, mas de apresentar um uso, isto é, uma interpretação para elas.

No campo do pensamento político há diversos conceitos. Palavras como capitalismo, socialismo, anarquia, mercado, propriedade, poder, indivíduo e sociedade são alguns exemplos de termos que necessitam de aprofundamento conceitual. Caso isto não ocorra, torna-se difícil compreender qual é o sentido pretendido. Devido a problemas de tradução da palavra inglesa libertarian é preciso diferenciar o pensamento libertário norte-americano do antigo uso da palavra libertário para designar os anarquistas clássicos.

Dentro da história do pensamento político, chamou-se de liberal o defensor de determinadas liberdades civis e liberdades econômicas. O liberalismo é a doutrina do liberal, pautado no pensamento dos liberais clássicos como Locke e Mill. O problema linguístico aparece quando nos Estados Unidos o termo liberal é usado para designar uma posição que, no Brasil, chamaríamos de liberalismo-social. Naquele país os defensores de liberdades se viram órfãos de um termo que os designassem. É neste contexto que aparece, para diferenciar o liberal, o termo libertarian.

A confusão para o leitor da língua de Camões ocorreu ao traduzir-se o termo libertarian por libertário. Este novo libertário também foi designado neste idioma como libertarista e libertarianista. É óbvio que um indivíduo que defende liberdades irá chamar a si mesmo de libertário, o defensor da liberdade, como aponta a definição dicionarista. Porém, devido ao uso deste termo em outras tradições do pensamento político, a confusão torna-se aparente.

Jorge Esteves da Silva está correto ao apontar que o termo libertário foi introduzido pelos teóricos anarquistas franceses no século XIX. No entanto apesar de reivindicar seu uso os anarquistas nunca buscaram ou quiseram ter direitos de propriedade sobre o uso desta palavra, o uso do termo libertário pode se modificar ao longo da dinâmica existente nas transformações linguísticas que sempre ocorreram na história.

Se o termo libertário foi introduzido pelos anarquistas, é compreensível que os seguidores de Joseph Déjacque (1821-1864) reivindiquem o seu uso para a defesa do pensamento político que defende a divisão equitativa do produto do trabalho numa sociedade organizada comunalmente, sem a existência de um governo central. É importante salientar que, antes de Déjacque, Pierre Joseph Proudhon (1809-1865) havia se autointitulado anarquista. O termo libertário não começa a ser utilizado como oposição ao mutualismo proudhoniano, como afirmam alguns libertários de direita, um sistema que defendia direitos de propriedade baseada na posse e uso e remuneração proporcional ao trabalho realizado.

Destarte, há neste ponto uma primeira distinção que merece atenção. Nos anarquismos não-individualistas o coletivismo é um ponto principal. Estes anarquismos que rejeitam em partes a associação com salários e preços, o chamado anarquismo social ou variações coletivistas no anarquismo, podem ter um caráter comunista libertário ou socialista libertário (posteriormente surge o anarco-sindicalismo). O anarco-socialismo, ou socialismo libertário, é a defesa de uma sociedade na qual todos os meios de produção são socializados. Porém, diferente de Karl Marx, defende que esta socialização ocorra sem a criação de um estado ou estrutura hierarquica e centralizada para governar. A revolução dos trabalhadores não trocaria os atuais governantes por novos governantes ou modelos centrais e estatais de organização, como defendeu Marx e ocorreu nas revoluções marxistas ao redor do globo. Contudo, para os anarco-comunistas há um problema grave com esta defesa socialista do anarquismo, pois ainda existira a remuneração pelo trabalho. O anarco-comunismo defende a abolição deste sistema de salários, visando uma distribuição dos bens a partir da necessidade. Tudo seria comum e distribuído para todos conforme fosse necessário o uso. Este sistema de abolição do dinheiro acabaria com a ideia de recompensa, pois todos teriam acesso ao que foi produzido e decidiriam democraticamente em suas comunas como utilizar os recursos e os bens produzidos.

O primeiro teórico a usar o termo libertário defendia uma posição anarco-comunista. Entretanto, Mikail Bakunin, teórico anarco-socialista, chamou seu anarquismo de socialismo libertário (em oposição ao socialismo autoritário, termo que usava para designar a ideia de Marx). Neste contexto, os anarco-comunistas, que viam no socialismo libertário uma estrutura de preços e salários, consideram a criação de outro termo para os definir e então surge o comunismo libertário.

Assim, o termo libertário na tradição anarquista não possui um uso uniforme. Obviamente que os anarcocomunistas reivindicam o seu uso devido ao seu surgimento porem não querem propriedade exclusiva sobre o termo e não sem importa com sua utilização por outras variações do anarquismo seja ela individualista ou coletivista. A liberdade que defendem é a liberdade social da vida numa comuna democrática com redistribuição por necessidade e não por mérito. Esta é a sociedade sem coerção, sem autoridade e sem amarras.

Por este tipo de anarquismo ser mais difundido, ajudado pelas revoltas e revoluções desencadeadas contra o capitalismo, não é de estranhar que os defensores do libertarianismo de direita sejam vistos com estranheza ao se considerarem libertários, porem as demais correntes anarquistas nunca os negarão o termo.

O libertarianismo, libertarianism no inglês, dentro da tradição anarquista está posicionado entre outro tipo de anarquismo que floresceu na primeira metade do século XIX, o anarquismo individualista. Nesta corrente é o indivíduo que está em primeiro plano, acima de um contexto social ou comunal.

Se na tradição individualista o libertarianismo defende as liberdades individuais em seu mais alto grau, ao defender um modo de produção de bens e serviços será buscada a forma mais livre de produzir. Portanto, é no livre mercado anti-capitalista que se pautará a defesa da efetivação da liberdade de se produzir onde, quando e como quiser com a reçalva de alguns mutualistas que defendem a busca de meios sustentáveis sempre que possível. Este ambiente de liberdade só é possível se as relações entre os indivíduos forem voluntárias e não orquestradas por um governo central. Bem diferente dos coletivistas, estes novos anarco-individualistas defenderão o mercado desempedido e anti-capitalista, sendo possível apenas num ambiente no qual sejam respeitadas as propriedades privadas cooperativistas. É exatamente no espaço privado que haverá a efetivação total das vontades e liberdades individuais. Como não são autosuficientes, os indivíduos precisarão efetuar trocas com outros indivíduos. O sistema de preços e as leis de oferta e demanda possibilitarão que as trocas justas ocorram, isto é, as trocas efetuadas voluntariamente serão justas se aceitas por ambas as partes sem a existência de fraude ou coação, para os anarquistas de livre-mercado este mesmo termo significa trocas voluntárias sem coerção ou intervenção estatal.

Apesar dessa defesa das liberdades, as liberdades econômicas eram o ponto menos aceito para uma tradição anarquista. Num século que foi marcado por ditaduras socialistas estatais, civil-militares e por enormes intervenções governamentais na economia era preciso demonstrar que a defesa de uma sociedade com mercados desimpedidos anti-capitalistas e anti-hierarquicas traria mais benefícios para os menos favorecidos economicamente. Esta defesa de uma economia de mercado trouxe para o moderno libertarianismo uma antiga direita, defensora do livre mercado capitalista e corporativista. Este foi um dos motivos para que os novos libertários ficassem associados apenas à defesa de mercados desregulados. Neste contexto, viu a necessidade de retomar-se uma forma de apresentar o libertarianismo que remonta à tradição individualista do anarquismo. Este libertarianismo retomado do século XIX fica conhecido como libertarianismo de esquerda (left-libertarianism) e é frequentemente utilizado por anarquistas mutualistas.

O libertarianismo de esquerda não é uma posição política homogênea. Antes, designa diferentes abordagens de questões políticas e sociais num contexto teórico nos quais diferentes teorias relacionam-se. Deste modo, falar em libertários de esquerda pode-se referir aos seguintes grupos teóricos: (1) esquerda libertária, (2) georgismo (geoísmo), (3) escola Steiner–Vallentyne, (4) agorismo, (5) left-libertarianism (libertarianismo de esquerda de livre mercado).

Apesar das diferentes linhas de pensamento, é a quinta vertente a que chama a si mesmo de libertária de esquerda. Há confusão, por exemplo, pelo fato de alguns autores identificarem alguns marxistas como Rosa de Luxemburgo, Anton Pannekoek, Paul Mattick, Cornelius Castoriadis, Jean-François Lyotard e Guy Debord como libertários de esquerda. A esquerda libertária, portanto, alinha-se muito mais com o socialismo libertário, já comentado anteriormente. Contemporaneamente, anarquistas famosos como Murray Bookchin e Noam Chomsky tem se identificado com esta tradição socialista de viés anti-estatal.

O georgismo refere-se à teoria político-econômica elaborada por Henry George. O ponto central do pensamento de George é que as pessoas são proprietárias de tudo o que criam, mas que os bens naturais, como a terra, não deveriam possuir proprietários. Economicamente significa que o único imposto existente deveria ser o imposto sobre a terra. Toda atividade econômica ficaria livre de taxação e a única taxação existente seria eficiente e equitativa ao recair sobre os que possuíssem mais propriedades de terra. Milton Friedman (1978) concordou com a posição de Henry George ao afirmar que o imposto sobre a terra seria menos nocivo e produziria menos distorções econômicas do que os impostos sobre as atividades econômicas. Vale salientar que apesar de não ser um anarquista, as ideias de George foram tomadas por alguns seguidores que reelaboraram o georgismo, transformando-o no chamado geoanarquismo, uma espécie de neo-georgismo.

A Escola Steiner–Vallentyne está alicerçada no pensamento de Hillel Steiner e Peter Vallentyne, além de possuir contribuições de outros acadêmicos e pensadores não necessariamente left-libertarians. A questão chave desta escola é criticar a concepção de autopropriedade de Robert Nozick (famoso pelo seu clássico Anarquia, Estado e Utopia) e a dedução de que a propriedade de outros recursos naturais decorra deste conceito. Neste contexto, o pensamento desta escola aproxima-se do pensamento de Henry George ao afirmar a necessidade de "uma compensação que os proprietários devem aos não proprietários mediante impostos ou rendas sobre a propriedade de recursos naturais, incluindo a propriedade da terra" (ROSAS, 2009).

O agorismo é a filosofia política elaborada por Samuel Edward Konkin III, ativista libertário. O termo remete à palavra ágora do grego. A ágora era a praça principal da pólis grega, o local onde ocorriam as assembleias e onde havia mercados e feiras livres. Ao propor o agorismo, Konkin queria fugir dos antigos rótulos "liberal" e "anarquista". O agorismo seria então a filosofia política baseado nos mercados livres anti-capitalistas ( que mais tarde seria utilizadas por AnarcoCapitalistas que se baseariam nos mercados livres anti-capitalistas estatais), em suas palavras "libertária em teoria e de livre-mercado anti-capitalista na prática". Konkin expôs suas ideias no Manifesto do novo libertário. Neste livro, apresenta o conjunto de conceitos e princípios que baseiam a defesa de uma sociedade livre. Aponta que a nossa condição é o estatismo e a econômia corporativista que este precisa ser eliminado para que se atinja a sociedade agorista. Defende a contra-economia, isto é, que os libertários evitem ao máximo a economia branca vendas e trocas por bancos e empresas "legais" e façam suas trocas no mercado negro, como forma de atingir o estatismo e o capitalismo. Konkin não apenas defendeu esta ideia, mas praticou a contra-economia incentivando o surgimento de empreendedores do mercado negro. Foi grande crítico de uma transformação pela via política, como o Libertarian Party, defendendo uma revolução cultural que minasse o estatismo.

O quinto grupo que pode ser definido como libertário de esquerda é o libertarianismo de esquerda. Neste sentido, quando dentro da tradição libertária (do libertarianismo) fala-se de um libertarianismo de esquerda (left-libertarianism) é a este movimento que se refere. Dentro os mais notáveis pensadores desta posição estão Kevin Carson, Roderick T. Long, Charles Johnson, Brad Spangler, Sheldon Richman, Chris Matthew Sciabarra e Gary Chartier.

A principal diferença do libertarianismo de esquerda com o libertarianismo mais difundido no Brasil está relacionada com questões sociais, como drogas e aborto, e questões econômicas, como propriedade da terra e grandes corporações. É certo que autores como Murray Rothbard, Walter Block, Leonard Read e Harry Browne ,assim como alguns anarcocapitalistas, escreveram sobre o libertarianismo não ser nem de direita e nem de esquerda, criticando autores que se posicionam nas vertentes left e right do pensamento libertário. Apesar deste ímpeto de evitar tal classificação, inclusive sob o slogan "nem esquerda, nem direita, libertário", Anthony Gregory apresenta uma distinção que pode auxiliar a diferenciação entre o libertarianismo de esquerda e de direita.

Outro ponto importante na abordagem à esquerda do libertarianismo é ser contra o poder das grandes corporações. Há enorme vinculação entre o poder estatal e o poder dos grandes grupos corporativos. Defender a liberdade econômica seria favorecer os que já começam no livre mercado amparados, auxiliados e favorecidos pela condição histórica anterior. Quantas histórias de favorecimento com doações de terras, ou mais sujas, como o pagamento de fiscais do governo para atrapalhar concorrentes e até mesmo a morte de concorrentes não existem no mundo do big business? Como as pessoas poderiam competir num mundo no qual o favorecimento histórico concedeu terras aos amigos dos que detinham poder político? Seria justo ignorar o histórico ilegal de aquisição de terras e bens? Terras sem uso deveriam ser consideradas propriedade e quem as usasse considerados invasores? Para os libertários de esquerda essas questões são fundamentais.

Em questões sociais, os libertários de esquerda desaprovam toda forma de opressão. São, por isso, contrários ao racismo, sexismo, hierarquia e formas autoritárias de educação e cuidados parentais.

Em suma, o libertarianismo de esquerda é uma oposição ao que Kevin Carson chamou de libertarianismo vulgar. Para Carson, a defesa da privatização, desregulamentação, diminuição dos impostos para corporações, negação do aquecimento global, aumento de políticas imigratórias e livre mercado sem a defesa da legalização das drogas, das liberdades civis, reforma nos impostos (fechando brechas usadas pelas grandes empresas), eliminação do bem-estar corporativo e liberdade de operar um negócio sem licença sanitária, por exemplo, é um libertarianismo incompleto, um libertarianismo vulgar, libertarianismo este que os libertários de esquerda se opõem com todas sua força, é importante reçaltar também que Libertários de esquerda são favoráveis de um forma geral a ações diretas e até mesmo táticas como o Black Bloc e também a greves e outros meios não-agressivos.

Temos então o libertarianismo de esquerda como algo diferente do anarcocomunismo e anarco-socialismo (socialismo libertário). As preocupações com os grandes detentores de poder econômico são similares. Porém, ao invés de uma sociedade com abolição total da propriedade privada e da moeda os libertários de esquerda defendem um livre mercado anti-capitalista com seus meios de produção auto-geridos e anti-hierárquicos baseados nas cooperativas como os coletivistas porem cooperativas estas que são privadas e não socializadas um livre-mercado anti-capitalista sem classes sociais nem burguesia uma vez que mesmo as cooperativas privadas estariam totalmente na mão dos trabalhadores e o acumulo massivo de capital se tornaria impossível na anarquia de livre-mercado, estes anarquistas de livre-mercado no entanto não se confundem nem um pouco com liberais ou anarcocapitalistas estes últimas são vertentes radicalmente diferentes e oposições do libertarianismo ou libertáio de esquerda.

A defesa de um livre mercado, entretanto, não se resume a apenas deixar de controlar a economia, mas de pensar um modo no qual cada um possa realmente ser dono de si numa sociedade construída sobre bases igualitárias que diminuíssem as diferenças herdadas por séculos de um sistema que favoreceu poucos em detrimento dos demais, questões de género, e outras opressões como machismo, homofobia e racismo são também de extrema importância para os libertarianistas de esquerda.

Com isto, é totalmente plausível chamar o libertarianismo de esquerda de libertário. O libertarianismo é de esquerda, pois considera os menos favorecidos. Talvez o termo libertário seja um problema semântico apenas para os defensores de um libertarianismo preocupado apenas com as questões econômicas, como Ancaps e libertarianistas de direita que se comparão fácilmente com liberais.

No geral libertário é um termo que é usado por todas variações tanto do anarquismo como de outros movimento, geralmente associados com uma área anti-autoritária da esquerda, Anarco-comunistas, Socialistas Libertários, Anarco Sindicalistas e Mutualistas que hoje usam o termo de Libertarianistas de Esquerda, e utilização deste termo não deixa de ser menos justa para nenhum deles e ambos nunca fizerão uma reivindicação sobre tais termos como se algo pertence-se a eles como alguns novos liberais/libertários de direita costumam fazer principalmente nos atuais grupos de discussão.



Fontes & Informações:

Referências Bibliográficas
KONKIN III, Samuel Edward. Manifesto do novo libertário. Disponível em:http://libertyzine.blogspot.com.br/2007/03/o-manifesto-do-novo-libertrio-samuel.html . Acesso em 24 de Jul de 2013.
FRIEDMAN, Milton. An Interview with Milton Friedman. The Times Herald, Norristown, Pennsylvania; Friday, 1 December, 1978.
GREGORY, Anthony. Left, Right, Moderate and Radical. Lewrockwell.com, 21 de Dezembro de 2006. Disponível emhttp://www.lewrockwell.com/2006/12/anthony-gregory/left-right-moderate-or-radical-libertarian/ . Acesso em 24 de Jul de 2013.
ROSAS, João Cardoso. A concepção de estado de Nozick. Crítica, 2009. Disponível em: http://criticanarede.com/nozick.html . Acesso em 24 de Jul de 2013.
SILVA, Jorge Esteves da. Os Libertários. Disponível emhttp://www.cedap.assis.unesp.br/cantolibertario/textos/0025.html . Acesso em 25 de Jun de 2012.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Proudhon e Bakunin: polar opostos?



Proudhon e Bakunin, tradicionalmente, representam dois lados diferentes da moeda da anarquia: o individualista e o coletivista. Enquanto Proudhon acreditava que o “Livre Contrato” é o objetivo da anarquia, Bakunin enfatizava a unidade coletiva como o libertador único do homem. Bakunin é geralmente citado como dizendo o seguinte:

Quão ridículas são as ideias dos individualistas da escola de Jean Jacques Rousseau e dos mutualistas proudhonianos que concebem a sociedade como o resultado do livre contrato de indivíduos absolutamente independentes de um do outro e entrando em relações mútuas somente por causa da convenção elaborada entre homens. Como se estes homens tivessem caídos dos céus, trazendo com eles a linguagem, o arbítrio, a reflexão original e como se eles fossem estrangeiros a qualquer coisa da terra, isto é, qualquer coisa tendo origem social.”


Todavia, o abismo entre eles não era realmente tão grande como é compreendido por ser pelos anarquistas contemporâneos. Certamente não era tão grande quanto a lacuna entre anarquistas coletivistas e individualistas são hoje. Coletivistas contemporâneos geralmente se aderem a alguma forma de Comunismo de Conselho ou Economia Participativa, enquanto individualistas geralmente se inclinam em direção a adoração de mercado dos austríacos (Rothbard e Konkin) ou a boemia hippie da multidão “pós-esquerda” (Zerzan e Bob Black). Eu imaginaria que Bakunin e Proudhon teria aprovado nenhuma destas facções ou, pelo menos, teria tido algumas queixas sérias.

A partir do que li, os esquemas políticos e econômicos de Bakunin são formas mais similares daquelas de Proudhon do que daquelas dos anarco-comunistas. Bakunin acreditava em um sistema de mercado baseado na Teoria do Valor-trabalho, assim como Proudhon acreditava. Ambos tinham teorias sobre um Banco de Câmbio, embora não idênticas. Bakunin também herdou o federalismo de Proudhon. Em meu entendimento, é a ênfase na comunalidade, fazer decisão coletiva e ação coletiva que diferencia Bakunin de Proudhon, completamente separado das dicotomias modernas de “mercado vs comunismo”. Proudhon, embora sendo um apoiador de cooperativas de trabalhadores e de outros empreendimentos cooperativos, não se importava muito por “coletivismo por causa do coletivismo”, isto é, coletivizar uma indústria ou comércio que pudesse ser manuseado individualmente. Bakunin argumentava que trabalho coletivo “aumenta a moral” e é mais eficiente.

O apoio de Bakunin de um sistema de mercado distorce algumas concepções modernas do que é um “livre mercado”. Certamente, existe uma forma de troca e ainda existe salários na forma de notas de ordem de pagamento [N. T.: no original, labour notes], mas é um “livre mercado”? Parece mais como uma forma de democracia descentralizada e comunal social para mim. Alguma coisa interfere e controla a economia; a livre comuna, embora claramente não um “governo”. É um “livre mercado” simplesmente “trocas econômicas sem interferência governamental”, ou está atrelado às concepções das políticas econômicas libertárias de direita? Oh bem, uma coisa é certa; os debates circulantes de assuntos sem estado hoje não são representativos aos debates a respeito de assuntos sem estado no século 19.

O coletivismo bakuninista não é uma ideologia muito difundida hoje, muito embora ela é ainda citada e admirada. Os individualistas não se importam pela filosofia dele e os comunistas não se importam pela economia dele. As ideias de Proudhon viveram, de forma breve, na adaptação de William B. Greene de suas ideias sobre comércio bancário e nosAnarquistas de Boston, mas extinguiram no início do século 20. A falácia é para assumir que, por causa das ideias deles não são discutidas, as ideias não são relevantes.

Assume-se que Kropotkin “desbancou” o anarquismo coletivista de Bakunin em seu ensaio intitulado “The collectivist wages-system”, mas o fato é que não havia realmente ninguém da escola bakuninista para defender o mercadocomunal publicamente, ao menos não em meu conhecimento. Então não é uma enorme vitória. Enquanto Proudhon, é adotado que Böhm-Bahwerk desbancou a teoria do valor-trabalho (aquele que nem abordou Proudhon), que Rothbard desbancou a teoria dele de banco mútuo, embora isso é uma vitória vã, uma vez que realmente não havia nenhum proudhoniano reconhecido para abordar estas críticas. E porque não havia ninguém para responder estas críticaspost-mortem de Bakunin e Proudhon, espantalhos foram mais facilmente permissíveis.


Conforme o estudo da relação entre o coletivismo de Bakunin e o mutualismo de Proudhon, você obtém um senso mais profundo do contexto histórico do que você poderia obter por apenas assumir que Proudhon era um individualista laissez faire e Bakunin um comuna anti-mercado (apesar de eu enxergar de onde vieram essas ideias ). Proudhon e Bakunin eram ambos pessoas únicas e complexas e devem ser tratados como tal. Eles eram antagonistas às vezes, é verdade, mas eles compartilham mais um com outro do que com qualquer outra facção do anti-estatismo moderno.

Por Sushigoat

Na anarquia o crime organizado controlará tudo

Outra objeção é que, em um arranjo sem estado, o crime organizado tomará conta de tudo.  Bom, é possível.  Mas é improvável.  O crime organizado surge justamente naquelas áreas que foram tornadas ilegais pelo estado.  O crime organizado adquire seu poder ao se especializar em atividades que foram proibidas pelo estado — coisas como drogas, prostituição, jogos, agiotagem e assim por diante.

Durante os anos em que o álcool era proibido, o crime organizado especializou-se no comércio de álcool.  Hoje, após o fim da proibição, praticamente não se ouve falar de crime organizado no comércio de álcool.   O poder do crime organizado, em grande parte, depende do poder do governo.  Ele é uma espécie de parasita das atividades do governo.  Os governos, ao proibirem certas atividades, criam mercados negros.  Os mercados negros são atividades perigosas de desempenhar porque seus membros têm de se preocupar tanto com o governo quanto com outras pessoas nada simpáticas que estão interessadas na sua fatia de mercado.  Adicionalmente, como os tribunais não fazem valer aqueles contratos que o estado considera ilegais, todas as pelejas contraídas no mundo do crime organizado têm de ser cumpridas na base da violência.  Todos estes fatores explicam por que uma indústria que é perseguida por agentes armados do governo acaba se tornando fortemente militarizada também.

Se a análise acima está correta, e o crime organizado (e gangues violentas em geral) prospera apenas naquelas áreas infestadas de intervenção estatal, então parece óbvio que uma anarquia de mercado iria emascular esses grupos criminosos.  Colocando em outras palavras, à medida que o governo legalizasse mais e mais setores, o crime organizado teria de concentrar suas atividades em negócios cada vez mais restritos.  No limite, se tudo fosse legalizado (do ponto de vista de legislação estatal), o crime organizado não teria como obter nenhuma vantagem especial.  Da mesma forma que a máfia não aguenta concorrer diretamente com uma fabricante de cervejas como a Budweiser, ela também perderia sua fatia de mercado para empreendedores honestos dos setores judiciário e policial caso o estado cancelasse seu monopólio sobre esses serviços.


Ayn Rand: agências de proteção privada irão guerrear entre si

Provavelmente, o argumento mais popular contra a anarquia libertária foi aquele apresentado por Ayn Rand.  Suponha que eu creia que você violou meus direitos.  Você nega.  Eu então decido acionar minha cooperativa de proteção privada para fazer valer meus direitos.  Você, para se defender, aciona a sua agência de proteção privada.  O que ocorrerá?  As duas irão entrar em guerra?  Quem garante que não?

A resposta, obviamente, é que ninguém pode garantir que elas não irão guerrear entre si.  Seres humanos possuem livre arbítrio.  Eles podem fazer todos os tipos de maluquices.  Eles podem iniciar guerras sem motivo aparente.  O presidente americano, por exemplo, pode apertar o botão nuclear amanhã se ele quiser. 

A questão é: o que é mais provável?  Qual dos dois é mais propenso a resolver suas pendengas por meio da violência: governos ou agências de proteção privadas?
A diferença mais óbvia é que agências de proteção privada têm de arcar com todos os custos de sua eventual decisão de fazer uma guerra.  Fazer guerra é algo extremamente caro.  É péssimo para os lucros.  Suponha que você pode escolher entre duas agências de proteção, uma que tende a resolver suas contendas por meio da violência e outra que tende a resolver suas contendas por meio do arbitramento.  Se você for um indivíduo belicista, fanático por guerras, você pode até achar legal optar pela agência violenta — até o momento em que você receber sua fatura mensal.

Ainda assim, por mais que você realmente seja um sujeito tão fanático por guerra a ponto de continuar disposto a pagar valores exorbitantes, é certo que a imensa maioria dos outros clientes irá preferir agências que não cobrem toda esta quantia extra apenas para brincar de guerra. 

Por outro lado, tal opção nem sequer existe quando se trata de governo.  Para começar, um governo possui clientes cativos, que não podem optar por não pagar, estejam eles de acordo ou não com a violência do governo.  Ademais, dado que o governo tributa seus clientes, e dado que seus clientes não podem se recusar a repassar o dinheiro, os governos não apenas não precisam se preocupar com custos, como eles também podem simplesmente externalizar os custos de suas guerras de uma maneira extremamente eficaz: mandando a conta para seus cidadãos pagadores de impostos.  Tal eficácia nenhuma agência privada jamais sonharia ser capaz de conseguir.


"O governo não é um monopólio coercivo" será?

Uma objeção que frequentemente é lançada não é exatamente uma objeção ao anarquismo, mas sim uma objeção ao argumento moral em prol do anarquismo: dizer que o governo, na realidade, não é um monopólio coercivo.

Segundo este argumento, os cidadãos, ao aceitarem viver dentro das fronteiras de um determinado território e ao aceitarem os benefícios que o governo oferece — por exemplo, serviços policiais, jurídicos, educacionais, de saúde etc. —, estão na prática consentindo com este arranjo.  Eles estão consentindo com o sistema vigente. 

A ideia é a mesma de quando você vai a um restaurante e pede uma carne.  Ao fazer isso, você não tem de dizer explicitamente que você está concordando em pagar por aquele carne; há simplesmente um entendimento tácito de que é isso que você fará.  Ao se sentar à mesa do restaurante e pedir a carne, você está automaticamente concordando em pagar por ela.
O argumento seria o mesmo para a não-coercividade do estado.  Se você reside dentro de um determinado território e aceita, por exemplo, os benefícios da proteção policial fornecida pelo estado local, então você implicitamente aceitou obedecer a todas as ordens desta organização. 
Logo de cara, observe que, mesmo que este argumento fosse válido, ele ainda não resolve a questão pragmática sobre a funcionalidade deste sistema; ele não explica por que este é o melhor arranjo possível.

Mas há outros problemas com este argumento.  É realmente verdade que, se eu for à propriedade de alguém, então há um consenso tácito de que, enquanto eu estiver nessa propriedade, eu tenho de seguir as regras locais.  Se eu não quiser seguir as regras locais, então eu tenho de ir embora. 
Ou seja, eu convido você para vir à minha casa.  Quando você chega, eu abro a porta e lhe digo: para ficar aqui em casa, você tem de usar este nariz de palhaço.  Isto certamente vai lhe parecer bastante estranho, mas ainda assim eu posso dizer: "Ei, é a minha casa e estas são minhas regras.  Se quiser entrar, tem de ser assim".  Neste caso, sendo eu o proprietário, você não pode simplesmente dizer: "Olha, eu vou entrar na sua casa, sim, e não vou usar o nariz de palhaço."  Se fizesse isso, você estaria invadindo a minha propriedade e desrespeitando as leis vigentes dentro dela, as quais foram estipuladas antes da sua entrada.  Isso, portanto, é algo que você não tem o direito de fazer.

Agora, imaginemos o cenário contrário.  Suponha que eu vá à sua casa e lhe diga: "Você tem de usar um nariz de palhaço".  Além do espanto total, sua outra provável reação será a de perguntar quando foi que você disse que concordava em ser obrigado a utilizar um nariz de palhaço dentro da sua casa.  Ao que irei responder: "Ora, você se mudou para perto de mim.  E eu uso nariz de palhaço na minha casa.  Portanto, o simples fato de você estar morando perto de mim significa que você, de uma maneira um tanto mística e tácita, consente em também utilizar nariz de palhaço dentro da sua casa, mesmo que você não goste da ideia."

As pessoas que defendem o monopólio estatal simplesmente pegam este cenário que é evidentemente absurdo em nível local e o expandem para um nível nacional: se você está aqui, então você deu seu consentimento tácito com tudo o que se passa nele.  Tais pessoas já partem da pressuposição de que o governo possui uma jurisdição legítima sobre um determinado território, de modo que quem está nele está automaticamente concordando com todas as regras vigentes.

O problema de tal raciocínio é que ele pressupõe exatamente aquilo que ele está tentando provar — no caso, que esta jurisdição sobre o território é legítima.  No entanto, caso não se consiga provar que tal jurisdição é legítima, então se conclui que o governo é simplesmente apenas mais um grupo de pessoas que vive neste amplo território geográfico. 

O que nos leva a outro ponto.  Eu vivo em minha propriedade.  Não sei bem quais são as determinações do governo em relação ao resto do país, mas sei que vivo em minha propriedade e ela pertence a mim, e não ao governo.  Logo, o fato de que estou vivendo "neste país" significa que estou vivendo em uma determinada região geográfica sobre a qual o governo possui certas pretensões.  Logo, a questão é: estas pretensões são legítimas?  Se o objetivo é justamente provar que elas são legítimas então não é válido já partir do pressuposto de que elas são legítimas.  Pressupor algo não significa comprovar sua legitimidade.

Outro problema com este argumento do contrato social implícito é que ele não deixa claro qual exatamente é o contrato.  Quando vou a um restaurante e peço comida, todos sabem perfeitamente qual é o contrato.  Sendo assim, neste arranjo é válido apresentar o argumento do consentimento implícito.  Porém, ninguém jamais diria que você pode comprar um imóvel desta mesma maneira.  Para a compra de imóveis, as regras são outras.  Ninguém diz que "Você meio que concordou com a compra ao ter balançado positivamente sua cabeça quando lhe mostrei o tamanho do banheiro".  Você tem de ver o que realmente está escrito no contrato.  Com o que exatamente você está concordando?  Um contrato não é claro se ninguém sabe exatamente quais são seus detalhes.